tarjeta Tendencia.jpg

 

 

Ciência da Beleza - Periódico - Ano 1 (2026) Nr. 03 /Jul-Ago-Set

 

O futuro da cosmética não será apenas personalizado pelo tipo de pele ou cabelo,
mas pelo CEP climático do consumidor.

 

 

E quando olhamos para os cabelos, essa relação fica ainda mais interessante

É aqui que o conceito de CEP climático começa a ganhar sentido                                                                                 

 

 

Imagine duas pessoas com a mesma idade, o mesmo tipo de pele e cabelos semelhantes. Uma vive em uma cidade quente e úmida. A outra, em uma região fria e seca. Elas deveriam receber exatamente a mesma recomendação cosmética?

Durante muito tempo, a personalização na cosmética foi construída a partir de características individuais: pele seca, oleosa ou sensível; cabelos lisos, ondulados, cacheados ou crespos. Mas existe uma variável que pode modificar profundamente essas necessidades: o ambiente ao qual cada indivíduo está continuamente exposto.

Temperatura, umidade, radiação solar, vento e poluição não estão simplesmente ao nosso redor. Eles fazem parte do exposoma, conceito que reúne o conjunto de exposições ambientais e comportamentais que interagem com o organismo ao longo da vida.

Na pele, essa relação já é bastante evidente. Temperatura e umidade podem interferir na função de barreira do estrato córneo e na perda de água, enquanto condições ambientais extremas podem contribuir para alterações na homeostase cutânea e agravar determinadas condições dermatológicas. A resposta, entretanto, não depende de um único fator: intensidade e duração da exposição, características individuais e condições ambientais combinam-se para determinar o efeito observado.(1,2)

Isso significa que duas pessoas classificadas simplesmente como “pele seca” podem não ter exatamente a mesma necessidade cosmética. Uma pode viver em um ambiente frio e seco; outra, em um clima quente, com elevada umidade e intensa exposição solar.

 

E quando olhamos para os cabelos, essa relação fica ainda mais interessante.

A fibra capilar também está submetida ao exposoma. A literatura recente descreve o chamado hair weathering como um processo cumulativo de deterioração da fibra, influenciado por fatores intrínsecos e extrínsecos. Radiação ultravioleta, poluição, umidade, variações de temperatura, estilo de vida e procedimentos químicos podem atuar conjuntamente ao longo do tempo.(3,4)

É importante entender que weathering não significa simplesmente “envelhecimento do cabelo” nem pode ser atribuído exclusivamente ao clima. Trata-se do resultado cumulativo de diferentes exposições que, progressivamente, podem modificar as propriedades da fibra.

A radiação solar é um exemplo particularmente interessante. A exposição à radiação pode alterar a cor, o brilho, a qualidade da superfície, o conteúdo proteico e as propriedades mecânicas do cabelo.(5) A umidade, por sua vez, participa da interação da fibra com a água presente no ambiente, contribuindo para mudanças em suas propriedades físicas. Quando diferentes exposições se repetem ao longo do tempo, seus efeitos podem se somar.

 

É aqui que o conceito de CEP climático começa a ganhar sentido.

O CEP, nesse caso, não representa apenas uma localização geográfica. Ele pode ser entendido como uma espécie de assinatura ambiental do consumidor: temperatura, umidade, intensidade de radiação solar, poluição, vento, altitude e padrão de exposição ao ambiente externo.

Imagine, por exemplo, um consumidor que vive em uma região quente e úmida, outro em um clima quente e seco e um terceiro em uma região fria e seca. Mesmo que os três tenham o mesmo tipo de cabelo, suas fibras estão inseridas em ambientes diferentes e podem apresentar necessidades cosméticas diferentes.

O mesmo raciocínio vale para a pele.

É nesse contexto que a cosmetologia clínica ganha uma nova dimensão. A avaliação cosmética pode deixar de considerar apenas as características individuais da pele, do couro cabeludo e da fibra capilar e incorporar também o ambiente ao qual esse indivíduo está continuamente exposto. Conhecer o seu “CEP climático” pode contribuir para uma escolha mais individualizada de ativos, veículos e estratégias cosméticas. Assim, a cosmetologia clínica passa a olhar não apenas como a pele ou o cabelo se apresentam, mas também em que ambiente essas estruturas estão vivendo.

Essa perspectiva aproxima a cosmetologia do conceito de exposoma e abre espaço para uma personalização que considere não somente características biológicas individuais, mas também o ambiente no qual elas se expressam.

O raciocínio deixa de ser apenas:

“Qual é o seu tipo de pele?” ou “Como é o seu cabelo?”

E passa a incluir uma pergunta igualmente interessante:

“Onde você vive?”

Mais do que isso:

“A que ambiente você está exposto todos os dias?”

Essa mudança pode representar uma nova fronteira para a personalização cosmética. Afinal, o consumidor não leva sua pele ou seu cabelo para um ambiente neutro. Ele vive, trabalha, pratica atividades físicas, viaja e dorme em diferentes condições ambientais.

Talvez o futuro da cosmética não esteja apenas em descobrir quem é o consumidor.

Talvez esteja também a descobrir onde ele vive.

 

Tarja.jpeg.jpg