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Ciência da Beleza - Periódico - Ano 1 (2026) Nr. 04 /Out-Nov-Dez

 

Quando a experiência passa a fazer parte do produto

 

O preço deixou de ser suficiente

Quando a fórmula encontra a experiência

O luxo também pode ser um ritual

Do produto à experiência de marca

 

 

Durante muito tempo, o varejo de luxo construiu seu valor a partir de códigos relativamente claros: exclusividade, preço elevado, acesso seletivo, ambientes diferenciados, atendimento personalizado, storytelling e forte componente simbólico. Esses elementos, porém, deixaram de pertencer exclusivamente às marcas de luxo. Aos poucos, passaram a influenciar categorias mais amplas, incluindo o mercado de beleza.

No setor cosmético, essa transformação é especialmente relevante porque o produto não é apenas consumido: ele é aplicado sobre o corpo, incorporado à rotina e associado a identidade, autoestima, prazer e autocuidado. Nesse contexto, a experiência ao redor da fórmula passa a participar da construção do valor percebido.

 

O preço deixou de ser suficiente

A premiumização do mercado não significa simplesmente vender produtos mais caros. Dados da Circana mostram que apenas 14% dos compradores de beleza nos Estados Unidos pesquisados no primeiro semestre de 2025 acreditavam que preços mais altos indicavam produtos de maior qualidade. Ao mesmo tempo, a empresa identificou uma aproximação entre os segmentos massivo e sofisticado, com consumidores buscando eficácia e maior valor percebido.
 

A mudança é importante: o consumidor pode aceitar pagar mais, mas precisa perceber por que aquele produto vale mais.

 

A própria McKinsey aponta que consumidores de beleza estão mais atentos à entrega do produto e à relação entre preço e valor, tornando eficácia e diferenciação elementos centrais da decisão.

No Brasil, a Euromonitor identifica inovação, construção de confiança, diferenciação funcional e estratégia de preços como fatores relevantes para a evolução do mercado premium de beleza e cuidados pessoais.

 

Quando a fórmula encontra a experiência

É nesse ponto que os conceitos de Retail Luxury se tornam interessantes para a cosmética. O luxo contemporâneo não depende apenas da raridade do produto. Ele trabalha com curadoria, sensorialidade, personalização, ambiente, serviço e construção de significado.

Na beleza, esses códigos podem aparecer em diferentes níveis. Uma loja pode oferecer diagnóstico e recomendação individualizada. Uma marca pode criar um espaço que estimula descoberta e experimentação. Uma embalagem pode transformar a aplicação em um pequeno ritual. Uma edição limitada pode gerar sensação de acesso antecipado.

E há uma dimensão que merece atenção especial: a experiência sensorial. Pesquisas sobre cosméticos mostram que atributos como textura e fragrância podem influenciar a percepção de prazer, bem-estar e aceitação do produto. Estudos de marketing sensorial também demonstram que estímulos dos sentidos participam da formação da percepção e do julgamento sobre marcas.

Assim, o consumidor não avalia apenas "o que estou comprando?". Também pode avaliar "como essa marca me trata?", "isso parece feito para mim?" e "essa experiência corresponde ao valor que estou pagando?".

 

O luxo também pode ser um ritual

Cosméticos têm uma característica particular: podem transformar atividades cotidianas em rituais. Aplicar um sérum pela manhã, escolher uma fragrância antes de sair ou dedicar alguns minutos ao cuidado capilar são comportamentos que podem adquirir significado além da função original.

É por isso que a exclusividade também pode ser reinterpretada. Em vez de depender exclusivamente de um produto que poucos conseguem comprar, ela pode estar na experiência que parece cuidadosamente construída para aquele consumidor.

A personalização é um dos principais exemplos. Recomendações baseadas em necessidades, histórico de compra, preferências e contexto podem aumentar a relevância da experiência. No luxo, a Deloitte identifica personalização, curadoria e integração entre cultura, dados e experiência como elementos importantes para construir relacionamentos mais duradouros.

Mas personalizar não significa simplesmente oferecer mais opções ou automatizar toda a jornada. Quando a interação se torna excessivamente genérica, a tecnologia pode produzir o efeito contrário ao desejado.

 

Do produto à experiência de marca

O varejo de beleza também passa a ocupar um papel estratégico nessa transformação. Lojas físicas podem funcionar como espaços de descoberta, experimentação, aconselhamento e relacionamento, enquanto os canais digitais facilitam pesquisa, comparação, recompra e personalização. A McKinsey projeta que os canais online poderão representar quase um terço das vendas globais de beleza até 2030, ao mesmo tempo em que as lojas físicas continuam relevantes para descoberta e compra.

Para a indústria cosmética, a consequência é clara. A inovação continuará sendo fundamental, mas sua tradução para o consumidor precisa ir além da tecnologia. O desafio está em conectar ciência, benefício, sensorialidade, comunicação, serviço e contexto de uso em uma experiência coerente.

No passado, o luxo podia ser definido pelo que poucos tinham acesso para comprar. Na beleza contemporânea, alguns de seus códigos assumem outra função: fazer o consumidor sentir que aquele produto, aquela recomendação e aquela experiência foram pensados para ele.

A pergunta estratégica, portanto, talvez não seja apenas "quanto vale esta fórmula?", mas: o que estamos entregando além da fórmula que faz esse produto valer mais para o consumidor?

 

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Imagem gerada por ChatGPT (Open AI, 2026), em 29 de setembro de 2026